quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Bad times


Nossa...muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, mas aqui estou eu novamente!

Acho que esse vai ser o post mais difícil de escrever, nos meus planos eu falaria da viagem para Rothenburg, que foi bem legal, ou de Mannheim que também foi show (literalmente), ou ainda da vinda da Jode para cá. Mas o assunto vai ser um pouco mais pesado e recente...

Semana passada o Oliver se mudou, agora na essência somos em 3 na casa. Uma das meninas também estava fora e a outra passou praticamente o tempo inteiro trancada no quarto, então eu só a vi por algumas vezes e bem rápido. Eu achei que ela estava um pouco estranha, mas acontece do pessoal as vezes ficar um bom tempo trancado no quarto por aqui, então eu nem liguei.
No final de semana aconteceu a coisa mais estranha, sábado de manhã eu estava tomando café da manhã com a Jode na cozinha e ela apareceu, eu dei bom dia e apresentei a Jode, a única coisa que ela falou foi bom dia e nem olhou para nós.
A noite eu encontrei com ela na cozinha e ela me perguntou o que eu faria no dia seguinte e eu disse que sairia com a minha amiga, ela me olhou bem surpresa como se fosse uma novidade o fato de eu estar com alguém em casa, aí ela saiu e foi para o quarto. Ainda na mesma noite ela apareceu no meu quarto e me perguntou algo que eu não entendi, eu pedi para ela repetir e ela só ficou me olhando, perguntei se estava tudo bem ela só respondeu que estava bem! Admito que eu achei muuuito estranho esse comportamento, mas como ela acabou de concluir o curso dela e está procurando emprego, eu achei que ela só andava triste, já que na primeira tentativa ela recebeu um não.
No domingo, quando eu cheguei em casa depois de levar a Jode na estação, a outra garota que mora conosco veio até o meu quarto para conversar, ela chegou na sexta. Ela me perguntou se eu tinha notado algo de diferente no comportamento da outra e eu falei tudo o que aconteceu. Foi aí que ela me contou sobre a história da garota.

Vou tentar expor o mínimo possível, mas como foi algo que realmente mexeu comigo acho necessário colocar aqui.

Ela teve uma infância tumultuada e durante a adolescência ela começou a fumar e a usar drogas. Há 7 anos ela conseguiu sair das drogas, começou a estudar e agora em julho ela terminou o curso e está procurando emprego. O problema é que as drogas deixaram sequelas, e ela precisa tomar remédios.
Nós conversamos um pouco sobre o comportamento dela, e a Nina disse que ela estava agindo de uma forma parecida com os relatos que ela própria tinha feito dos momentos de quando ela estava nas drogas. Ou seja, ficamos muito preocupadas, até tentamos entrar em contato com a irmã dela, que seria a única parente que poderia ajudar. Segunda a noite quando chegamos do trabalho, a irmã não tinha respondido e foi o momento mais chocante para mim. A Nina, passou numa clinica para saber como lidar com a situação, resultado, tínhamos duas opções, ligar para a ambulância ou ela tinha que aceitar ir por vontade própria. Como ela estava se recusando a falar em inglês, eu só consegui ver o que estava acontecendo e tentar pegar as coisas pelo contexto. A Nina tentou convencer mas de uma forma bem delicada, só que eu acho que as coisas não estavam fazendo muito sentido para ela, então ela se trancou no quarto. Mas até aí, uma cena bem estranha se passou na cozinha, estávamos tentando agir naturalmente, só que quando eu falava só a Nina respondia e como já havia acontecido várias outras vezes elas ficaram conversando em alemão, mas eu consegui entender coisas do tipo, a Nina falando para ela que não adiantava ligar para alguém (mais tarde ela me contou que era o pai) pois a pessoa estava na Tailândia e que ela viu o celular da Nina na mesa e disse que era a irmã dela ligando, mas a Nina pegou o celular e disse que era dela, então foi como se ela entendesse que a irmã não poderia ligar ali.
Decidimos ligar para a ambulância, falaram que tínhamos que conversar com a psiquiatra, e como ela estava ocupada, ela retornaria a ligação. Nisso, ela saiu do quarto e disse que queria andar, melhor queria ir sacar dinheiro. O problema é que bem nessa hora a doutora retornou a ligação, aí a Nina disse que era alguém e pediu que esperássemos enquanto ela atendia no quarto. Eu tentei conversar com ela nesse meio tempo, mas ela só respondia ok ou just keep talking, I'm listening to you (continua falando, eu estou te ouvindo), o problema é que eu fiz várias perguntas abertas e cabia qualquer resposta exceto essa, aí eu tive que fazer uma espécie de um monólogo natural de 5 minutos com ela, acreditem 5 minutos nessa situação é muita coisa!
Fomos até o banco que é bem perto de casa, isso já era mais de 11 da noite! Enquanto ela estava sacando dinheiro, a Nina me contou que eles não poderiam mandar a ambulância, logo a única opção era ela ir por vontade própria!
Falamos que iríamos até a loja de conveniência do posto aqui perto, quando chegamos já estava fechada, foi aí que a Nina explicou a situação para ela e ela concordou em ir ao hospital. Pegamos um taxi, já que não tinha mais transporte e a doutora nos atendeu (a mesma que falou com a Nina no telefone). Acho que ficamos uns 10min na sala e foi bem tenso, mesmo sem entender exatamente o que elas estavam falando eu conseguia entender um pouco do que estava sendo conversado. Depois eu e a Nina saímos da sala para a psiquiatra poder conversar melhor. Quando fomos chamadas novamente a médica disse que ela ficaria uns dias lá, até se recuperar. A Nina me explicou que aparentemente o problema é que ela parou de tomar os remédios, por isso que ela estava com toda aquela confusão mental. 

Desde ontem eu não consigo parar de pensar em tudo o que aconteceu! De várias formas, tanto olhando para o lado dela, quanto para o meu.
Do lado dela é principalmente o fato de ela ter conseguido ir tão longe, tudo bem que ainda não sabemos se ela voltou a usar drogas, mas só o fato de interromper os medicamentos já foi uma coisa bem séria. E agora num momento bom de vida profissional (ela ainda não tinha emprego, mas se formou com boas notas) acontece isso.

Mas por incrível que pareça, ou não (afinal acho que sempre nos colocamos no centro do universo), eu pensei mais sobre mim nesta história toda.
Fiquei pensando como fui totalmente insensível com o ocorrido. Eu percebi que tinha algo errado e a única coisa que fiz foi perguntar se estava tudo bem! Não acho que ela me responderia muito mais coisas se eu tentasse, mas pelo menos eu perceberia antes que definitivamente tinha algo sério acontecendo. Também não sei quanto tempo eu levaria para descobrir que era esse tipo de problema, mas no mínimo saber que uma ajuda profissional era necessária acho que daria para descobrir. Isso serviu, mais uma vez para abrir um pouco meus olhos sobre o meu comportamento, foi uma situação séria, que por falta de atenção/interesse ou seja lá o que você queira chamar, eu deixei de ajudar alguém e ao mesmo tempo me coloquei em risco (afinal ela não estava no melhor juízo, sabe-se lá o que poderia acontecer se essa situação se prolongasse). Essa foi uma situação extrema, que eu torço para que nenhum se vocês tenha que enfrentar, mas que pelo menos serviu como um ACORDA, presta mais atenção em quem te rodeia! Isso não no sentido de que eu possa estar com alguém perigoso, mas que pode ser que esteja acontecendo diversas coisas que impactam as vidas dessas pessoas, eu simplesmente ignoro, consequentemente ignoro também as pessoas, afinal elas são mudadas por essas coisas!

Outro ponto interessante, é que eu estou lendo um livro que aborda a questão da mudança de paradigmas. Eu senti na pele o que o autor disse sobre essa questão. Até antes da Nina me contar a história toda, eu achava essa garota muito estranha e por uma espécie de preconceito eu não a achava bem sucedida. Na minha cabeça uma alemã de 28 anos era sempre uma mulher resolvida, bem sucedida profissionalmente, com seu carro e apartamento, talvez uma família. Quando eu conheci essa garota, que nessa idade ainda dependia de ajuda de programas sociais do governo para se manter e que com todo o super sistema de educação alemão ainda estava estudando e nem era uma graduação, eu considerei que ela era uma pessoa acomodada. De repente eu descubro esse pedaço da vida dela e tudo muda! Não coloquei os detalhes que a Nina me deu sobre a infância/adolescência e a relação com os familiares, mas agora eu considero ela uma pessoa muito batalhadora, passar por tudo o que ela passou e chegar aonde ela chegou não é fácil. Isso me fez sentir ainda mais o fato de ela ter tido essa recaída. Espero que ela se recupere e consiga continuar com a vida que vinha levando. Também espero que eu tenha realmente aprendido algo com isso.

  
Das ist alles Volks!

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